“O futuro deixa-nos muito preocupados, como temos dito várias vezes, como tem dito o presidente, como tenho dito eu, quer em sede da Liga, quer nos fóruns adequados. O facto de lançarmos esta petição é exatamente porque achamos que estamos a seguir uma receita de há 10, 15 anos, para uma realidade que já não é, de todo, a de há 10 ou 15 anos. Achamos que este projeto de centralização tem algumas pechas, é anacrónico, está desadequado”, disse em entrevista à televisão do clube, no dia em que foi revelado que a SAD do Benfica teve um resultado líquido positivo de 19,1 milhões de euros (ME) na última temporada futebolística, apresentando lucro pela segunda época consecutiva,
O presidente do Benfica, Rui Costa, submeteu em agosto à Assembleia da República uma petição que pede a suspensão e revisão do atual modelo de comercialização centralizada dos direitos audiovisuais.
A comercialização centralizada dos direitos audiovisuais dos jogos da I e II ligas foi decretada pelo Governo em 2021, na sequência da assinatura de um memorando de entendimento entre Federação Portuguesa de Futebol e Liga Portuguesa de Futebol Profissional, com aplicação a partir de 2028/29.
Este modelo inviabilizará os clubes de comercializarem individualmente os direitos de transmissão das suas partidas, tal como fez o Benfica em janeiro, ao cedê-los de novo à operadora NOS, a par da distribuição da estação BTV, num acordo de 104,6 ME para 2026/27 e 2027/28.
Nuno Catarino lembrou que os grandes exemplos dados eram os mercados italiano e neerlandês e salientou que ambos estão a “decair profundamente”, acrescentando ainda que em França existe uma realidade diferente de um clube [o bicampeão europeu Paris Saint-Germain], que é uma ilha em relação aos restantes.
“Acreditamos profundamente que, para a larga maioria dos clubes em Portugal, até centralizar, juntarem-se e negociarem os seus direitos de uma forma agregada faz todo o sentido. Agora, não acreditamos que faça sentido para todos fazer tudo igual e depois montar uma chave artificial que, em boa verdade, também não reflete aquilo que é a componente social do produto na sua dimensão, que vai para além do futebol, em que também entra aquilo que é o peso. Não tem isso em consideração e chegamos a uma solução que não vai ser boa para ninguém e vai ser penosa para todos”, frisou o responsável.
O vice-presidente dos ‘encarnados’ acredita que o ‘bolo’ a distribuir vai diminuir e que será “menos para dividir”, referindo que vai ser “muito mais penoso para o Benfica”.
“Vai ser penoso para todos e vai ser muito mais penoso para o Benfica, se [a centralização] avançar, e nós acreditamos que ainda é possível inverter a situação, porque, ainda por cima, vão penalizar aquele que foi o clube que mais inovou na componente do produto, o que é uma coisa que não faz sentido. Isto é quase penalizar o mérito, o arrojo de lançar um canal de televisão, de distribuir o seu próprio produto de uma forma que mais ninguém faz no resto do mundo. Isto é bastante pernicioso, para usar uma palavra moderada, e nós vamos combatê-lo”, garantiu.
Em relação ao ponto de situação sobre a petição, o responsável referiu que o primeiro objetivo está concretizado, com a recolha do número mínimo de assinaturas para ser discutida em plenário.
“Achamos que vamos ter um muito bom número de adeptos. E não apenas adeptos do Benfica, mas também de outros clubes, que vão perceber que temos de arranjar modelos novos para este produto. Primeiro, é preciso valorizar o produto. É preciso fazer o trabalho de casa que estava pensado fazer há sete anos e que não foi feito. Estamos a começar uma casa pelo telhado, sem fundações, sem nada, e o resultado antevemos que, se não se parar agora, não vai ser bom”, frisou.
A Autoridade da Concorrência (AdC) deu em junho um parecer positivo ao modelo de centralização dos direitos audiovisuais aprovado pela maioria dos clubes da LPFP.
Em 08 de junho, as sociedades desportivas dos campeonatos profissionais aprovaram, com cerca de 80% dos votos, a proposta apresentada pela Liga Centralização para a distribuição das futuras receitas provenientes da comercialização dos direitos audiovisuais do futebol português.
A proposta aprovada pelos clubes assenta num modelo que combina diferentes critérios de repartição, valorizando o mérito desportivo, o desempenho nas competições nacionais, o ranking europeu da UEFA e o histórico recente dos clubes na I Liga.
Segundo a chave de repartição aprovada, no escalão principal, a distribuição das verbas vai ser definida por cinco critérios e a maior fatia está ligada ao sucesso desportivo, uma vez que 57,5% do valor será alocado em função da posição final no campeonato, do histórico de classificações e da contribuição para o ranking da UEFA.
Outros 20% vão ser repartidos pelos clubes em partes iguais, enquanto os restantes critérios incluem em parcelas mais pequenas as assistências médias nos estádios e as audiências televisivas (17,5%), as condições proporcionadas para as transmissões (cerca de 3%) e a qualidade dos relvados, da iluminação e das condições para o trabalho da comunicação social (2%).